domingo, 13 de janeiro de 2019

Questão de liquidez



No mercado de FIIs, a imensa maioria se define como investidores de longo prazo. Muitos desses adotam a estratégia de Buy&Hold. Portanto, são investidores que não pretendem vender seus papeis por qualquer motivo. Então, por que motivo liquidez é considerado como um importante fator por esses investidores?

Liquidez é a facilidade, ou dificuldade, de se adquirir ou desfazer de um ativo. Geralmente depende da quantidade de investidores que estão negociando o ativo e de sua concentração nestes. Por exemplo, podemos ter um fundo com 3 milhões de cotas, mas, destas, 2,9 milhões foram adquiridos por fundos de pensão e de investimentos, restando apenas 100 mil cotas em poder de pequenos investidores pessoa física. Se os fundos não quiserem abrir mão de suas cotas, a liquidez será determinada pelos pequenos investidores. Como consequência, serão poucas as negociações mensais, tornando difícil a compra e venda do ativo.

Outra consequência da baixa liquidez é o spread elevado.  No mercado de renda variável, spread é a diferença entre as melhores ofertas de compra e venda de um mesmo ativo. Um ativo de alta liquidez terá um spread muito baixo, na casa dos centavos. Já num ativo de baixa liquidez, o spread pode ser superior a 5% do valor do preço. Pior, podem sequer existir ofertas de compra ou de venda.

Bem, até aqui parece que comprar um ativo sem liquidez não é um bom negócio. Existe uma crença que bons ativos possuem uma liquidez elevada, pois sempre existirão pessoas interessadas em comprar esses ativos. Isso não é verdade. Basta ver que ações que possuem as modalidades ON e PN: mesmo que a ação ON seja considerada superior, por melhor proteger o acionista, e receber os mesmos dividendos, seu preço poderá ser inferior a PN e não possuir uma boa liquidez. A PN, por ser mais liquida, exibirá o que se denomina “prêmio de liquidez”, um preço mais elevado pelo simples fato de ser mais liquida.

Mas, a importância dada por alguns investidores de longo prazo a questão da liquidez é algo contraditório. Seja no Buy&Hold, ou no Value Investing, a liquidez não é um fator importante. Espera-se que tais investidores sejam pessoas pacientes, capazes de não se importar em ficar com um ativo durante anos. Então, por que o desespero com a dificuldade de comprar ou vender um ativo? Comprar um fundo como o RDPD11 ou o FVPQ11 pode ser um exercício de paciência, uma ordem por um preço justo pode demorar meses para ser executada, mas, desde que se esteja num preço justo, ela em algum momento será executada.

Mas, e se eu precisar de dinheiro? E se eu precisar vender? Bem, neste caso, então, não se trata de investimento de longo prazo. Talvez a melhor definição de investimento de longo prazo seja: aquilo que não tem prazo. Por exemplo, se o recurso usado no investimento destina-se no final a adquirir, depois de 3 anos, um imóvel, o fato de ter um prazo definido já o inviabiliza como investimento de longo prazo. Se para o investidor existe a necessidade, em algum momento, de sair rapidamente de um ativo, ele deveria reavaliar se se enquadra ou não como investidor de longo prazo.

Mas, imprevistos podem ocorrer e a necessidade de vender pode surgir. Para essas situações espera-se que o investidor saiba gerir a sua carteira. Não se espera que 100% dos seus investimentos estejam em ativos sem liquidez. No mínimo, deveria ter uma reserva de emergência.  Mas, caso ocorra uma situação extrema, a eventual perda deveria ser considerada como normal. Uma pessoa que aplica num CDB de 5 anos, se depois de 1 ano precisar do dinheiro, será punida com uma perda parcial dos rendimentos. É algo que se aceita ao se contratar um CDB. Se a pessoa é dona de um apartamento e, por um motivo qualquer, precisar vender com rapidez, ela terá que colocar pedir um preço muito abaixo do mercado para concretizar rapidamente a venda. E nessas situações, nem a liquidez salva. Por exemplo, quem comprou BBDC4 em meados de 2015, por R$ 27, e no inicio de 2016 precisasse do dinheiro, teria que vender por R$ 18, com perda de 1/3 do valor investido.

Outro argumento usado é a dificuldade de se colocar ordens ”até cancelar” nas corretoras. Algumas exigem que o valor da ordem esteja depositado na conta, outras cobram por ordens parciais. Nestes casos, o melhor é simplesmente trocar de corretora. Muitas já disponibilizam crédito aos seus correntistas, de forma que não é necessário permanecer com o dinheiro parado na conta. Outras possuem planos de corretagem que não cobram por ordens parciais. Algumas até isentam de corretagem a negociação com FIIs. Se você é um investidor de longo prazo, deveria procurar uma corretora que se adeque a sua forma de operar.

Por fim, quando a liquidez é importante? Em primeiro lugar, óbvio, quando existe uma grande possibilidade de se necessitar desses recursos investidos de forma imediata. Mas, neste caso, não será um investimento de longo prazo. Outra situação é a aplicação de determinados tipos de trades, como a venda a descoberto, o day-trade e estratégias de curto-prazo baseadas em gráficos. Aqui uma curiosidade: existem trades onde se deseja que os spreads sejam elevados. Típico caso são as pessoas que gostam de negociar imóveis, comprando-os de pessoas   desesperadas por dinheiro para depois revender num preço justo. Por sinal, as fortes oscilações de preço devido a baixa liquidez oferecem oportunidades para os investidores de valor adquirirem ativos com preços descontados.

Portanto, se você é um investidor de longo prazo, liquidez não deveria ser um problema. Acreditar que liquidez é sinônimo de ativo sólido é um equivoco. Basta lembrar o que aconteceu com Telemar, Paranapanema, OGX, Varig  e tantos outros que um dia já se destacaram pela sua liquidez. Mas, se ainda assim, você acredita que grau de liquidez é algo fundamental, então deveria refletir se seu perfil é de investidor de longo prazo.

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