quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

AT e AF: análise ou estratégia?

Uma grande confusão, que já dura algum tempo, é a definição do que seja Análise Técnica. O que muitos consideram como AT na verdade não o é, mas sim uma estratégia baseada em AT. Esse modelo de estratégia se popularizou com o surgimento dos Home-Brokers e a possibilidade de manter ordens de stop. Fez fama quando supostamente evitou grandes prejuízos decorrentes das crises econômicas. Logo, 95% dos que diziam usar AT na verdade usavam uma estratégia de operação baseada no uso de stops.

Esse método foi incentivado por corretoras e analistas, interessados nos ganhos decorrentes das taxas de corretagem. Isso porque, nessa estratégia, para cada operação com sucesso ocorriam diversas outras que fracassavam, gerando constantes ordens de compra e venda. Hoje, muitos percebem que essa estratégia talvez não seja a melhor. Simplesmente comprar uma boa ação como Vale PN talvez resultassem em ganhos superiores no longo prazo.

De fato, o uso de stops não é a melhor estratégia num mercado francamente altista. Vários foram os que venderam diante do primeiro espirro do mercado. Vários perderam oportunidades de compra esperando o rompimento de uma LTB ou o surgimento de um pivot. Enquanto isso, quem usou algo que lembra a AF pode dormir tranqüilo sem, aparentemente, maiores preocupações.

Então, temos aqui duas mentiras. A primeira é a confusão que fazem entre AT e estratégia de operação baseada em stops. A AT não implica no uso de uma determinada estratégia, não obriga a se operar apenas no curto prazo, não impõem a sucessão alucinante de operações de compra e vende de um ativo. Ela é uma ferramenta para auxiliar a operação, da mesma forma que a Análise Fundamentalista, que pode ser emprega nas mais diversas estratégias.

Aí surge a segunda mentira, parecida com a primeira, onde se confunde AF com uma determinada estratégia, com o argumento de que ela dá tranqüilidade ao investidor. Num período de franca alta, a suposta estratégia AF, que nada mais é que investimento de longo prazo, dá a ilusão de tranqüilidade. Contudo, ela mostra as suas falhas em períodos de turbulências, visto que é pouco dinâmica. Portanto, a AF não é uma estratégia, mas, com a AT, uma ferramenta de apoio, que serviria para diversos tipos de estratégia. Porém, ela é vendida como estratégia.

A desilusão de alguns com a Estratégia AT pode levar a crer na tal Estratégia AF. Porém, ambas são equivocadas, pois AF e AT não são estratégias, mas ferramentas de análises. A busca de fundos de investimentos ditos AT ou AF não faz qualquer sentido, pois supõe a adoção de uma dita estratégia que não o é. Teríamos então fundos baseados em AT que dificilmente poderia ter uma boa performance, visto que não é uma estratégia adequada em momentos de calmaria. Do outro lado, fundos baseados em AF poderiam apresentar uma performance enganadora, visto que se baseiam numa relativa imobilidade, adequada a períodos de calmaria, mas que não garante o futuro diante de mudanças repentinas de cenário.

Buscar desempenhos baseados em períodos de 5, 6, 8 anos leva a descoberta de informações incompletas, pois não houve nesse período nenhuma grande crise. A história nos mostra que é comum e cíclico os períodos de grande crise, onde mais da metade do capital vira literalmente pó, independente da qualidade das empresas. Pode parecer absurdo, mas empresas conceituadas e bem estruturadas, mesmo sem qualquer ameaça externa, podem ter seu preço reduzido a menos de 20% do valor inicial (no Brasil, muitos investidores estrangeiros mantêm pesadas posições baseados na situação do câmbio, podendo realizar seus lucros, independente da qualidade da empresa, fato que também explica a valorização de qualquer botequim). Tal fato é vendido pelos que pregam a estratégia dos stops, apresentada como AT, como justificativa para ocasionalmente vender tudo. A posterior recuperação pode demorar anos, mas ela realmente acontece, e quando ocorre é usada como argumento pelos que vendem a estratégia de investimento de longo prazo, apresentada como AF, como justificativa para a imobilidade.

Ambas as estratégias causam pesados prejuízos ao investidor. A estratégia de stops, com seus alarmes falsos, reduz a possibilidade de lucro. A estratégia de investimento de longo prazo força assumir grandes prejuízos após as crises, mantendo a esperança de uma recuperação no futuro, ocasionando a perda de oportunidades.

Se as duas estratégias são equivocadas, porque o investidor continua a procurá-las? Simples: o investidor comum não quer aprender a usar uma ferramenta, mas sim uma estratégia que lhe permita fazer fortuna. Em determinado momento, percebe que a compra e venda diária só faz a riqueza do dono da corretora. Depois, ao adotarem os supostamente seguros investimentos de LP, percebe que o lucro na bolsa só existe depois da realização do lucro, da venda. Talvez seja por isso que existam tantas pessoas que perderam com a bolsa.

3 comentários:

Anônimo disse...

Grande Abaco !

Parabéns. Excelente o artigo.
Alimentou minha curiosidade... como você resolve a questão ? ou seja como define o seu "modus operandi" ?

Grande Abraço
CHRistian
www.chrinvestor.com

Abaco disse...

Christian,

Eu acho que dei a dica, uso a AT e a AF como ferramentas, assim como também busco outras informações, minha capacidade de ver o futuro e uma boa dose de procedimentos que mimizem o risco. Exemplo, se o setor de construção civil deve ser favorecido, prefiro os fornecedores de material, ao invés das construtoras. Entre as empresas do setor, faço a escolha pela análise gráfica.
Não opera no CP, portanto não uso stop. Por outro lado, desfaço uma posição caso veja que entrou numa tendência de queda. Nestes casos, é como uma operação de compra, vendo para comprar em seguida num preço mais baixo, fazendo preço médio. Isso porque estou numa empresa com bons fundamentos e com tend~enca de alta no LP, então é plenamente justificável fazer preço médio.
Por fim, a administração de riscos implica numa carteira muito grande, com muitos pápeis. Também significa que vou me abster de ganhos fenomênais. Basta que no ano tenha um desempenho superior ao Iboespa. Isso dá tranquilidade, pois com apenas 4 ou 5 pápeis sempre há o medo de alga dar errado, o que até justifica o uso do stop, que no final acaba reduzindo a possibilidade de ganhos.
Em resumo, essa é a forma que opero e posso garantir que o rendimento é superior ao Ibovespa, com poucos riscos e uma certa tranquilidade. É uma forma adequada a quem não quer ficar rico, mas ter uma rendimento mensal ou aponsentadoria.

Sandro disse...

Ábaco e CHRistian,

Freqüento os blogs de vocês e tenho aprendido com ambos. Somente hoje (20/01) li esse artigo/diálogo. Após um ano e quatro meses operando na bolsa, e antes da atual crise, passei a me disciplinar para usar estratégia semelhante à descrita pelo Ábaco.